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Idosos são alfabetizados e ganham programa apoiado pela Prefeitura

21/06/2017

O simples ato de assinar o próprio nome pode causar uma sensação indescritível, tal como uma criança quando lê a primeira frase completa. É o deslumbramento dessa sensação que a Prefeitura de Aracaju vem ajudando as pessoas a sentirem. São homens e mulheres que só puderam aprender a ler e a escrever quando idosos, e hoje recebem o incentivo na alfabetização através do Programa Alfabetização de Jovens e Adultos (AJA), promovido pelo Serviço Social do Comércio (SESC) e apoio da administração municipal, por meio da Secretaria Municipal da Assistência Social e da Cidadania (Semasc).

Apesar de ser um programa voltado para jovens e adultos, a maior parte dos assistidos é de pessoas com mais de 50 anos, em sua maioria mulheres que, muitas vezes priorizando o trabalho ainda na infância por causa das dificuldades financeiras, deixaram de frequentar a escola ou sequer chegaram a sentar em um acento de sala de aula.

Atuante em Sergipe desde 2002, o programa AJA atende atualmente 12 turmas em 11 comunidades de Aracaju e Grande Aracaju, sendo que em duas dessas comunidades unidades da Prefeitura dão o suporte para o desenvolvimento, não só didático, mas social.

Superação

No Centro de Referência da Assistência Social (Cras) Terezinha Meira, no conjunto Veneza, bairro Olaria, o programa está em pleno desenvolvimento desde 2010. Por lá, dona Lenilde Santos de Souza encontrou no caderno pautado as linhas para traçar um novo caminho. Aos 70 anos, ela fala com entusiasmo dos cinco anos que frequenta as aulas.

"Foram minhas filhas quem me incentivaram e me sinto outra pessoa depois que comecei a vir para as aulas. A melhor sensação que tive na vida foi quando aprendi a ler e a escrever. Estudei até a 4ª série e, depois que me casei aos 17 anos, meu marido não me deixou mais estudar porque tinha ciúmes. Após 35 anos de casada, me divorciei e senti a liberdade pela primeira vez para poder estudar como sempre quis", contou ela num momento em que, mesmo cuidando de problemas cardíacos, não perde nenhum dia de aula e ainda enxerga muito futuro para abraçar outros sonhos.

De segunda a sexta-feira, das 18h às 21h, o quadro branco da sala vai, aos poucos, ganhando as formas que são capazes de transformar uma vida pacata em uma verdadeira coletânea de expectativas. Dona Gisélia Gomes dos Santos, de 61 anos, bem sabe como é. Sem nunca ter ido a uma escola, ela comemorou a primeira vez que teve autonomia para ir a uma clínica sozinha. Em Aquidabã, onde viveu parte da infância, eram os homens quem mais tinham a chance de estudar. Mesmo depois de ter se mudado para Maruim, a história não foi diferente e, ao chegar em Aracaju, com o casamento, viu a vontade de estudar sendo substituída pelas obrigações familiares.

"Eu engravidei oito vezes, mas só tive três dos filhos. Então, vivi para cuidar da minha família. Quando uma amiga me falou das aulas no Cras, cheguei a ter que trazer o meu marido porque ele tinha ciúmes, mas hoje tudo mudou. Posso ir para onde eu quiser e cheguei a fazer outros cursos por trabalhar com artesanato. Aprender a ler e escrever mudou inclusive quem eu sou", revelou a aluna Gisélia.  

Para dar continuidade aos estudos, muitos deles não abdicam das responsabilidades familiares, como é o caso de  Maria Lozenita, de 69 anos, que, por não ter com quem deixar a bisneta Ana Júlia, de 7 anos, a leva para as aulas noturnas. "Fui criada por meus avós e trabalhei a infância inteira na roça. Quando fiquei mocinha, passei a trabalhar como doméstica e nunca parei para estudar. Hoje, minha bisneta é quem me ajuda a aprender as lições. Mesmo sendo difícil às vezes, não deixo de estudar porque é como uma terapia para mim. Minha maior emoção foi o dia em que não precisei mais melar a digital para assinar um documento com o meu nome", disse sem esconder a emoção da lembrança.

O senhor Antônio Francisco dos Santos já considera o Cras como uma segunda casa. Afinal, durante o dia ele é vigilante do local e à noite vai às aulas no mesmo espaço. No alto dos 58 anos, ele agora vigia também as letras. "Parei de estudar na 5ª série e fui trabalhar. Aí veio a família e priorizei sempre o trabalho para dar sustento. Voltei a estudar porque estava deixando de aprender e perdi muito tempo. Quando achei a oportunidade, agarrei com vontade. Hoje tenho uma filha que vai se formar professora e ela é quem mais me incentiva, além dos amigos que fiz estudando e dos professores que nos acolhem tão bem. A vida é muito boa e quero aproveitar o que estou aprendendo para usar agora e no futuro", ressaltou.

Quem ensina também aprende

Anualmente, o programa AJA atende mais de 300 pessoas, isso somente em uma das unidades em que atua em Aracaju. Os locais onde o AJA se instala são previamente avaliados para saber se têm demanda e segurança, conforme explicou a coordenadora do programa, Raquel Leite. "Tudo é muito bem analisado para garantir que o aprendizado seja feito da melhor maneira possível", destacou Raquel.

Com um método diferenciado do que é aplicado nas escolas regulares, no curso os professores não trabalham com séries e os alunos podem participar pelo tempo que lhes for conveniente. "Temos uma linha construtivista. Recebemos a proposta da Direção Nacional e a aplicamos. Fazemos uma avaliação quando os alunos chegam e passamos atividades de acordo com as dificuldades de cada turma. Muitos saem daqui e partem para o que poderíamos chamar de ensino fundamental e seguem para outros caminhos, e alguns chegam até ao curso superior, como nós já vimos", explicou a coordenadora.

Ainda que sejam os professores e coordenadores que transmitem os conteúdos são também eles que afirmam que o aprendizado é mútuo. É o sentimento da supervisora Marta Damásio. "Sempre trabalhei com crianças, mas é lindo ver o valor que os idosos dão aos professores. São tantas histórias que nós é que acabamos aprendendo com eles. Muitos têm histórias de sofrimento e mesmo assim, ainda desejam e inspiram o aprendizado e veem um futuro melhor", afirmou.

"Hoje eles poderiam estar ensinando a alunos mais jovens e aos pais como enxergar a escola como eles enxergam, a grandiosidade que a educação representa para eles. É um aprendizado mútuo, porque eles aprendem, mas nós também aprendemos com eles", disse Raquel Leite.

Transformação social

Outro ponto destacado pela equipe do programa é a quebra da visão distorcida que os alunos tinham deles mesmos antes de iniciarem o curso. "A principal mudança é que eles passaram a enxergar a importância que têm na sociedade, que eles têm capacidade. Tive uma aluna que disse que a família a chamava de burra. Isso não existe. Trabalhamos muito com o incentivo. Não é só o pedagógico, é também a questão social. É como um círculo. À medida que os alunos têm outro olhar para eles mesmos, a própria sociedade percebe e se dá conta de que os idosos têm muito a oferecer também, afinal, ainda têm plena capacidade de aprender", completou a supervisora.

Para a Josefa Neide, coordenadora do Cras Terezinha Meira, o curso, além da alfabetização, possibilita uma troca essencial para o grupo atendido. "A maioria dos alunos do programa fazem parte do serviço de convivência do próprio Cras. O que percebemos é a evolução deles em sociedade, o que acaba por nos estimular enquanto profissionais atuantes na assistência social. Como ente público, programas como esse só têm a agregar valor ao serviço ofertado à população. Sejam jovens, adultos ou idosos, todos fazem parte da população e, consequentemente, são pessoas que contribuem para o desenvolvimento de suas comunidades e da nossa cidade", salientou.

 

fonte: ASN


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